Curso sobre Liturgia Vodun na Baia de Todos os Santos
Uma postura acadêmica lugar comum, quando o assunto
é a história do negro no Brasil, é o
viés simplista pelo qual se atribui, à
priori, a ausência de história cronologicamente sedimentada, perceptível, associada
à gente africana.
Trata-se de uma postura pseudocientífica.
No que diz respeito à movimentação humana do povo
negro no aspecto espaço-temporal da história, a antropologia ocidental precisa
sair do gabinete de Franz Boas (1858 – 1942) e atravessar,
com sinceridade e passos decisivos, o campo de Bronislaw Malinowski (1884 – 1942), para abraçar os legados de Lorenzo Dow Turner (1890 – 1972) e Edward Franklin
Frazier (1894 – 1962), ainda que sejam, esses
estudiosos, um linguista e um sociólogo, respectivamente. É que a execução
criteriosa e bem avaliada dos trabalhos científicos produzidos por esses dois
ícones afrodescendentes, aponta na direção da existência real de dados e
registros confiáveis da trajetória humana do povo negro.
Sim,
existem dados e registros confiáveis consubstanciando uma cronologia efetiva da
história do povo negro!
A antropologia clássica resolveu priorizar, por
exemplo, a iconografia, sem mencionar, sequer, dados constantes em registros historicamente
ordenados; com isso favoreceu indiretamente a perpetuação da imagem do povo
negro (à exceção do Egito, que teimavam em não considerar como pertencente ao
continente africano) na qual ele não figurava como ser humano, e sim como
rebanhos trazidos à força, criminosamente, conduta ”legalizada” de um sistema
internacional: os negros eram referidos como gado da guiné, rebanhos de seres viventes sem história, sem
cultura, sem passado.
Foi assim que a cultura Voodoo adentrou à composição da sociedade brasileira ao longo dos
três séculos de escravismo (do século XVI ao século XVIII), ficando até hoje à
deriva no curso dinâmico da história, arrastada como restos de um naufrágio!
Mas nós negros somos povos resilientes, e,
teimosos, insistimos no nosso humanismo sem qualquer compromisso
judaico-cristão com uma comunidade que insiste em ignorar a existência, forte,
de um modelo pan-africano de sociedade que nos serve como estética! As sociedades afrorreligiosas são modelos de
estética social pan-africana, desempenhando um papel pivotal para o registro da
nossa história e fortalecimento do nosso resgate indentitário.
Um exemplo irrefutável do viés antropológico que
denuncio acima é o que acontece com a visão que se tem do reino do Daomé, um
reino poderoso de fala e tradição Fon, militarizado, uma superpotência do
passado da África ocidental...
Uma pergunta rápida: no nosso contexto educacional
o legado do Daomé aparece como contraponto ao legado greco-romano? Não? Por
qual motivo?
No nosso dia-a-dia, a herança do Daomé está tanto quanto
ou mais presente que a herança greco-romana no seio das comunidades
afrodiaspóricas. Afinal, foi daquele
reino da costa ocidental da África que nós trouxemos o Culto Vodun para as
Américas, um polo gerador de influência tão merecedor de registro e história e tão
resistente às intempéries afins ao passar do tempo, quanto o é aquele reino da
Europa de um povo que falava Latim.
Mas não cabe a nós aqui desenvolver este aspecto
complementar da evolução do Voodoo, entendido
no momento como uma religião. Basta dizer que após a fundação daquele reino (Daomé)
por Houégbadja em 1625, quando já existia o culto a muitos deuses, o Vodun
tornou-se um verdadeiro sistema religioso.
Sob o rei Agadja (1708-1740), o reino do Daomé se
expandiu e se fortaleceu graças às suas conquistas. As guerras permitiram capturar
inimigos, estes que foram vendidos como escravos aos europeus, e esse comércio permitia,
assim, que o reino aumentasse consideravelmente seus recursos materiais.
Seria
um empreendimento hercúleo a tarefa de enumerar os tipos de Vodun ou
classificá-los extensivamente. O que vamos abordar e buscar no nosso Minicurso,
são explicações práticas e procedimentos tradicionais dos principais processos litúrgicos
em um Culto Vodun na Diáspora afroamericana local.
Faremos
a nossa abordagem através do estudo dos conteúdos sinalizados, ao longo de 10
(dez) encontros, a partir do dia 4 de outubro, sempre às terças e
quintas-feiras, das 17h às 19h, na sede do Instituto Reparação, situado na
Praça da Sé.
Venham!
Serão todos muito bem-vindos!!!
Imagem: https://www.letemps.ch/images/photos/culture/vaudou-benin-images (acessada em 22/09/2022)

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