O Clã Nagô-Vodun Sakpata-Azansù
Na tradição religiosa Iorubá na Nigéria, o Orixá “Xapanã” é o Porteiro da
Morte.
É interessante notar a relação de
parentesco entre a Vida e a Morte mediada pela Terra, que tem esse Orixá como um
dos patronos.A palavra “Xapanã”, é um termo Iorubá cuja escrita original é “Ṣapanà”e cuja etmoliga é: “Ṣa”, que significa Guardião, Sentinela, + “pa” que significa matar, morte induzida, assassinato, etc. + “nà”, que é uma compressão da palavra “ọ̀nà” que significa “caminho”, “estrada”, etc.
Logo, Xapanã é o “Guardião da Estrada da Morte”, ou, ajustando melhor para representar o verdadeiro significado da atribuição dessa Entidade, Xapanã é o “Porteiro do Reino dos Mortos”.
Dentre
os vários pontos comuns às várias Culturas religiosas da Costa Ocidental da
África, existe uma comunhão especial no que toca a relação entre a Vida do
homem e a sua Morte, como sendo um fenômeno regulado pela sua vinculação uterina
com a Terra, que é, indubitavelmente, a Fonte Primária da matéria usada para a
Fabricação Divina do Corpo Humano.
É
oportuno também sinalizar, no momento em que declaro esse reconhecimento, que nessa
Terra, que fornece a matéria-substancia usada para a composição do corpo humano, estão
presentes os elementos representativos da Água, do Fogo e do Ar, assim como
também devo proclamar o reconhecimento da “Inteligência intrínseca” a essa matéria-substancia, que garante
ao corpo, a concatenação ente a sua evolução biofísica (nascimento,
crescimento, envelhecimento e morte) e o programa que a conjuntura corpo+cabeça+
alma, precisa cumprir sobre o Ilê Aye, o Planeta Terra, missão essa determinada pelo Senhor de Todos os Céus, Olorun, e cuja outorga tem Orummila por seu Testemunha.
A
comunhão especial entre os vários avatares das Divindades da Vida e de suas respectivas transmigrações
ao longo dos circuitos regulados pela Morte e pelo Renascimento, é domínio da
mais Alta Esfera Sacerdotal Jeje-Nagô-Vodun.
Entretanto, pedindo a benção aos
Mais Velhos, pedindo o Favor de Exu Tiriri, e com muita humildade, vamos historiar
brevemente o Culto aos Nagô-voduns da Casa de Azansu-Sakpata, em referencia a alguns dos seus avatares, nominando e analisando alguns
dentre seus principais atributos e características.
No
antigo Reino do Daomé, império onde nos séculos XVI e XVII (período que nos afeta
diretamente por conta do tráfico negreiro), reinaram os soberanos da etnia Fon,
de quem nos herdamos o Culto aos Voduns, tanto em consonância com a Cultura Mahi
(Jeje Mahi), como em consonância com a Cultura Savalu (Jeje Savalu, guardando
que tanto o povo Nagô quanto o povo Mahi, integram a população de Savalu).
Por
conta do fluxo de pessoas vindas daquela região como escravizados naquela época, o Culto à Divindade
Sakpata (que em última análise estava presente nas terras Fon) nos foi legado.
Nas áreas dos antigos acima citado reino do Daomé, (no Sudoeste),
assim como também no reino de Allada, (no Sul, da atual República do Benin) e nas terras Mahi-Nagô (no
Departamento de Colinas, no centro do território dessa mesma República (onde
estão as cidades de Savé e Savalu), o Orixá Sakpata foi ali
sincretizado com o Vodun Azɔnsù, que nós no
Jeje Savalu, chamamos de Azansù,
A palavra Fon
Azɔnsù significa “Homem da Doença” ou “Homem doente” (sendo sua
etimologia: Azɔn, que
significa “doença” + “sù” que significa homem, macho,
masculino), é uma referência ao domínio desse Vodun e de todo o Clã ao
qual Ele pertence, sobre as endemias, pandemias, etc.
A
nossa principal herança religiosa no Culto Religioso Jeje Savalu, vem do eixo étnico e
cultural Fon-(Jeje)-Nagô, composto, como o próprio nome sugere, pela contribuição Cultural Religiosa dos nossos
ancestrais Fon (que nós chamados de Jeje) e os a contribuição dos nossos antepassados Nagô (guardando
que muitos Nagôs ainda vivem em Savalu). Daí, vem a nossa adoração ao
Nagô-Vodun Sakpata-Azansun do Clã da Terra (em Fon, Ayi-Vodun Akɔ̀, da família da Nossa Mãe Mais Velha, Nana,(Na = Mãe, NaNa = Vó) em Fon Ayi-Vodun Nana Hεnu).
A relação do Vodun Azansu-Sakpata com a Terra é
tão emblemática
do poder do Clã ao qual ele pertence, sobre as forças do subsolo que Ele é referido como Ayinɔ̀,
ou seja, o dono da terra e é lhe é atribuída uma Senioridade tão elevada, que Ele é considerado como o filho mais velho
de Mawu
(que é Mãe-Parceira de Lisa, na criação do Mundo).
A tradução do nome Fon Ayinɔ̀ para o Iorubá é Ọbaluwaye
e significa “Rei do Mundo”.
É daí que Ele é referido
pelos Nagô como Ọbaluwaye (cuja etimologia
é: “Ọba” que significa “Rei” + “Olú”, que significa,
“Senhor”, “Dono”, “Proprietário” + “wa” que significa “nós” + “aye”
que significa “mundo”).
Esse
é o nosso Obaluayê, o Rei do Mundo, o Senhor da Varíola e, por
extensão, de inúmeras enfermidades, tanto aquelas que deformam o corpo, quanto aquelas outras altamente contagiosas. Todo o povo Fon o teme enormemente e o cultua fervorosamente mediante uma série infindável de representações, cada uma sendo um aspecto de doenças e infecções as mais diversas.
Nas áreas Nagô
da Costa Ocidental da África, entretanto, Xapanã passa a ser referido como Sakpatá [observando que a etimologia é agora: Sa = Guardião + Kpa = morte, onde o carácter “kp”
que é utilizado na escrita e na fala Iorubá dos Nagô (mas não é caractere do alfabeto Ioruba) + “tá” = flecha, flechada, tiro] e cujo significado, efetivamente,
remete ao mesmo teor do atributo primordial de Xapanã, (Guardião do Portão da
Morte), sincretizando assim essa Divindade ao Panteão Nagô
Sakpata passa assim a ser a Divindade
reguladora da ligação entre a Vida e a Morte, tanto para os Nagôs (nossos irmãos
étnicos que, como disse acima, habitam Savé e Savalu), quanto para os Gun,
(Nagôs e Iorubás que habitam o território do Benin nas partes exteriores em
relação as duas localidades que mencionei logo acima).
Outros Voduns desse Clã, que ainda
continuam cultuados na Costa Ocidental da África (Benin, Togo, Daomé e Costa do
Marfim), não são cultuados aqui em nas nossas regiões afroreligiosas (Bahia,
Maranhão, Pernambuco, etc.), e, penso, um resgate de aguns Deles seria de Grande Valia para a minora efetiva para essa grande aflição que o munto todo está passando no momento por conta dessa pandemia encabeçada por um vírus de nome Corona-19.
Vamos citar e analisa brevemente
alguns deles:
·
Kòhɔ̀sù, (Kò = “argila”, + Ahɔ̀sù “Rei”, ou seja, "Rei da Argila" que é o
Pai do Clã de Sakpata, que a gente no Jeje chama de Kohosu.
Ele, junto com Nana,
prepara o barro, aquele barro que é o “pó” ao qual, por exemplo, a “Bíblia
católica” se refere quando diz: “Veio do
pó e ao pó retornará...”;
·
Nyɔ̀hwè Ananú (Nyɔ̀ =
“podre” + hwè
= “poça” e A =
tu, vós + Nà = “princesa” +
Nú = “que mora”, “que habita”. É “Dona das águas paradas”. No Jeje a gente
chama de Nyohwe
Ananú. É a Dona da água podre, e estagnada,
que mata de repente.
Tanto Kohosu,
quanto Nyohwe Ananú são ambos filhos
de Nà Buùku (Nà = “Princesa”
+ Bu = “Inteiramente” + un
= suspiro de lamento + Ku = morte), ou seja, a “Princesa
(Rainha) da Morte”, que nós no Jeje chamamos de Nã Buluku., que é, por sua vez, filha de Nana Buluku e a gente chama de Nana Buruku.
E mais uma série interminável de Voduns ofiomorfos (Voduns
Serpentes) como
·
Dàn Zoji
, (Dàn = “Serpente” e Zo = “pequena estação das chuvas” + Ji = “do céu”) é o Vodun que envia a disenteria e os vômitos. É considerado o mais velho de todos da Casa (Clã) de Sakpata. Em verdade a sua forma de serpente é resultante da sua falta de braços e pernas, ou seja, é causada por anomalias físicas. Ele é carregado em uma padiola, mas tem o poder da invisibilidade e, apesar do defeito físico, a sua Vontade é acatada por todos os membros do Clã de Sakpata. Ele é o Ẹlẹ́ Fulọ (O Senhor da Febre).
, (Dàn = “Serpente” e Zo = “pequena estação das chuvas” + Ji = “do céu”) é o Vodun que envia a disenteria e os vômitos. É considerado o mais velho de todos da Casa (Clã) de Sakpata. Em verdade a sua forma de serpente é resultante da sua falta de braços e pernas, ou seja, é causada por anomalias físicas. Ele é carregado em uma padiola, mas tem o poder da invisibilidade e, apesar do defeito físico, a sua Vontade é acatada por todos os membros do Clã de Sakpata. Ele é o Ẹlẹ́ Fulọ (O Senhor da Febre).
Dàn Langaàn (Dàn = “Serpente” e Lan= “carne, animal” + Gaàn = “visível”) é o Vodun que come a carne do doente enquanto esse ainda está vivo.
·
Dàn Sinji (Dàn = “Serpente” + Sin = água + Ji = aumentar. É o Vodun que traz
as inchações e tromboses.
·
Aglossuntó é responsável pelas feridas e
chagas que nunca cicatrizam.
·
Adohwan castiga perfurando os
intestinos.
·
Avimadjé é o que leva as almas dos que
morreram punidos por Sakpatá (Esse Vodun é brevemente cultuado aqui entre nós).
·
Bosu-Zohon é o grande feiticeiro.
·
Alogbê possui cinco braços e é ligado
aos Tohosu;
·
Tohosu é uma classe de voduns, cujo nome
significa "Rei das Águas". Eles residem em riachos de Abomei, Abadô, Azili, Gudu e Dido. Seu culto provém da
crença de que crianças que nascem com deformações físicas são espíritos das
águas encarnados, e o costume mandava que essas crianças fossem devolvidas às
águas. Embora esse costume tenha caído em desuso, ainda hoje alguns desses espíritos
são cultuados como voduns, possuindo templos sobretudo nas regiões de Abomei,
Zagnanado e arredores, Savalu, Dassa-Zoumé e arredores, Aizo Aladá e arredores.
Os Tohosu mais célebres são os pertencentes à família real de
Abomei, chefiados por Zomadonu.
Mais recentemente, o culto aos tohosu tem sido associado ao nascimento de
crianças que nascem física ou mentalmente excepcionais, como aquelas com Síndrome de Down ou paralisia cerebral.
·
Adan Tanyi é filho de Dàn Zoji, e é o Vodun que traz a Lepra.
·
Suvinengué um abutre com cabeça humana e é
filho de Da Langan.
Referencias:
1. Sakpata;
https://pt.wikipedia.org/wiki/Sakpata <acessado
em 16 de abril de 2020>
2. Tudo sobre a nação nagô;
http://catiacmam-tuosobreanaonag.blogspot.com/2009/09/sapana.html
<acessado em 16 de abril de 2020>
3. SERRA,
Ordep; Laudo Antropológico do Tombamento
do Hunpame Savalu Vodun Zo Xwe;
4.
Tohosu
https://pt.wikipedia.org/wiki/Torro%C3%A7u
< acessado em 17 de abril de 2020>.
5. Imagem
ttps://assets.letemps.ch/sites/default/files/media/2019/12/06/file78adirbca46jbjcjjn5.jpg
< acessado em 17 de abril de 2020>
Gostei muito. Linguagem clara, profunda e respeitosa
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