Luiza Mahin, uma importante liderança Jeje Nagô da Revolta dos Malês
– Ẹ
ku ọjọ́ mẹta!
Ṣẹ alaafia ni?
Ara ilé ńkọ́?
Iṣé ńkọ́?
Bràsíì jẹ́ orilẹ̀-èdè kan ni eyítí a sọ èdè Yorùbá. Ẹ jẹ ki a gbé èdè àti àṣà Yorùbá Lárugẹ –
Ṣe o ti gbọ́?
...
Vamos traduzir?
Eu falei em Iorubá (ou nagô) o seguinte:
– Quanto tempo,
hein!
Você vai bem?
Os (seus) familiares estão bem?
O (seu) trabalho, vai bem?
O Brasil é um pais no qual a língua Iorubá é falada. Vamos manter viva a língua e a cultura Iorubá –
É sob inspiração da realidade brasileira revelada acima, que dou início a uma série de artigos mediante os quais me proponho a dar visibilidade à algumas lideranças nagôs ou de origem “nagô”, desabilitadas pelo projeto de construção de uma sociedade brasileira distante dos valores africanos, o que nunca corresponderá à verdade. O Brasil tem uma parte africana legitimamente importante: só falta reconhecer.
Eu escrevi em artigo que publiquei no Portal
Correio Nagô no dia 27 de agosto de 2010, do qual trago aqui o seguinte trecho:
“Nagô é o nome que se dá ao iorubano ou a todo negro da Costa dos
Escravos que falava ou entendia o Iorubá…. Kètu, Egba, Egbado e Sabé são alguns dos segmentos nagôs que vieram para a Bahia
provenientes da grande área Iorubá que compreende sul e centro da atual
República do Benin, ex-Daomé e parte da República do Togo...”
Foi da Costa Ocidental da África que
veio uma mulher negra muito especial, que imprimiu seu nome nos anais da nossa
história (que resgataremos da invisibilidade). O nome: Luiza Mahin.
Nascida na área que ficou conhecida como
a Costa da Mina, Luiza veio para
a Bahia na condição de escravizada,
para, sob seu próprio esforço e talento, crescer para se tornar uma das lideranças
de um levante armado conduzido por negros, escravizados e livres, e pardos, na
sua maioria islamizados, que ficou conhecido como a Revolta dos Malês
(1835).
O nome (Revolta dos Malês) se origina
dessa característica marcante dos revoltosos, vez que a palavra “malê” é a pronuncia
iorubá que significa “muçulmano”.
Esse levante, acontecido no dia 25 de
janeiro de 1835 na nossa Salvador, teve em Luiza Mahin, uma das suas mais
expressivas lideranças
Luiza era uma mulher de origem étnica
associada a grande “nação nagô-jeje”, e mais especificamente à sub-nação Mahin. Aliás, é dessa
sub-nação que vem o seu sobrenome, e certamente, também o seu DNA de rebeldia e
altivez. O significado do termo Mahin
(ou Mahi) é explorado pelo professor Sylvain
Coovi Anignikin, da Universidade de Abomey, Calavi, República do Benin (um
autor e editor estudioso da história dos antigos reinos africanos). No
seu trabalho intitulado “À propos de la
controverse sur l'ethnonyme et le toponyme « Mahi »” (Sobre a
controvérsia sobre o etnônimo e o topônimo "Mahi"), ele escreveu:
"...Ce sont ces relations conflictuelles entre le puissant royaume
d'Abomey et les nombreuses petites communautés villageoises des marches
septentrionales du Danxomè qui ont engendré le toponyme et l'ethnonyme
« mahi ». Ce terme péjoratif qui souligne le caractère belliqueux et
rebelle de ceux à qui il est attribué, a été inventé par les souverains
d'Abomey pour désigner ces populations qui osaient défier leur puissance et
tenaient en échec la redoutable armée du Danxomè... "
Tradução:
"...
São essas relações conflituosas entre o poderoso reino de Abomey e as muitas
comunidades de pequenos vilarejos no Norte do Daomé que deram origem ao
topônimo (nome do lugar, localização geográfica) e ao etnônimo (nome da etnia,
designação étnica) "mahi". Esse termo pejorativo, que enfatiza o
caráter belicoso e rebelde daqueles a quem é atribuído, foi inventado pelos
governantes de Abomey para designar aquelas populações que ousaram desafiar seu
poder e se mantiveram dando trabalho, pelo seu destemor, ao formidável exército
do Daomé ... "
Em 1835 a grande maioria dos escravos da Bahia
nascidos na África era realmente gente de língua iorubá (cerca de 30 por cento)
e muitos deles professavam a religião muçulmana, embora a maioria dos nagôs
fosse de fato adepta do candomblé dos orixás.
A Revolta dos Malês é um episódio que
evidencia a importância política que os africanos de religião muçulmana tiveram
na história do Brasil – com um legado pouco conhecido que perdura até hoje.
Luiza Mahin, participou ativamente de
todos os levantes escravos que abalaram a Bahia nas primeiras décadas do século
XIX, e não só da Revolta dos Malês.
O movimento armado dos Malês oi deflagrado na noite de 24 para 25 de
janeiro (1835) data escolhida sob inspiração estratégica pois representava a confluência
do dia santo católico dedicado à Nossa Senhora da Guia com o encerramento do Ramadã,
que é o mês de jejum dos muçulmanos.
Naquele momento escolhido, cerca de 600 escravos e recém-libertos, por
algumas horas tornaram-se senhores das ruas de Salvador. Mas, tendo seus planos
revelados as autoridades antecipadamente, os revoltosos sofreram pesadas baixas
por conta da autuação das forças da repressão.
Os líderes do movimento foram perseguidos e castigados brutalmente.
Foram cerca de 70 mortos e 500 insurgentes punidos com penas de morte, prisão,
açoites e deportação.
O combustível para a revolta teria sido a prisão de um líder religioso malê
de nome Pacífico Licutan, cujo nome árabe era Bilal, que estava preso para
pagar as dívidas de seu senhor. Ele fora condenado a pena de 1200 chibatas.
No desenrolar das escaramuças, os rebeldes enveredaram por ruas, becos e
vielas, batendo nas portas e janelas das casas e convocando pessoas
escravizadas e também libertos a se unirem a eles no combate. Cerca de 600
revoltosos, muçulmanos e não muçulmanos, responderam ao chamado e participaram
do levante.
Perseguida por conta da sua atuação
no levante, Luiza, no entanto, conseguiu
fugir para o Rio de Janeiro onde teria aportado em 1837, e deu continuidade
a luta pela liberdade de seu povo até ser presa e desaparecer em 1838, podendo
ter sido até mesmo, deportada para a África.
Como negra
africana, livre, da nação nagô, e não batizada, ela sempre recusou o batismo e
a doutrina cristã.
Um de seus filhos naturais se tornou um grande
poeta e um dos maiores abolicionista do Brasil: Luís Gama (1830-1882), nascido em Salvador e
morto em São Paulo. Por iniciativa do Coletivo de
Mulheres Negras de São Paulo, seu
nome foi dado (1985) a uma praça em Cruz das Almas, bairro da capital paulista.
Referências:
1. Rádio Peão
Brasil; O legado de negros
muçulmanos que se rebelaram na Bahia antes do fim da escravidão:
https://radiopeaobrasil.com.br/o-legado-de-negros-muculmanos-que-se-rebelaram-na-bahia-antes-do-fim-da-escravidao/
(acessado em 15/06/19);
2. BRITO,
Adelson S.; A palavra nagô;
https://correionago.ning.com/profiles/blogs/a-palavra-nago
(acessado em 16/06/19)
3. REIS,
João J.; REVOLTA
DOS MALÊS EM 1835;
http://www.ccib.org.br/origem.htm (acessado em 15/06/19)
4. AGNIKIN, Sylvain C. ; Histoire des populations mahi : À propos
de la controverse sur l'ethnonyme et le toponyme « Mahi »* Cahiers
d´études africaines ;p. 243-266 https://journals.openedition.org/etudesafricaines/86
(acessado em 17/06/19)
5. Luiza
Mahin: Liderança na Revolta dos Malês;
http://unisinos.br/blogs/ihu/memoria/luisa-mahin-lideranca-na-revolta-dos-males/ (acessado
em 15/06/19
6. Imagem:
http://unisinos.br/blogs/ihu/memoria/luisa-mahin-lideranca-na-revolta-dos-males/
(acessado em 17/06/19)

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