Os nagôs do Reino de Savè, na República do Benin




“ – Lóní a wa ni ilú Savè ni orilẹ-ede Benin nibiti ọdun àkójòpọ̀ ọmọ yorùbá kaakiri agbalaye fun ayẹyẹ ọdun káàrọ jire to si waye...– ”
Uma tradução adaptada do texto acima é: “ – Hoje nós estamos na cidade de Savè, na República do Benin onde um Festival reúne o povo Iorubá espalhado pelo mundo. Esse festival celebra o orgulho dos descendentes dos iorubás ... –”.
O texto acima escrito em Iorubá é um trecho do que o apresentador Tunde Oladimeji fala em um vídeo gravado em Savè (uma cidade situada na República do Beni) por uma equipe da TV ÀRÀMBARÀ, uma emissora nigeriana acessível via Youtube sediada em Ibadan, atual capital do estado de Oyó, Nigéria.
Tunde Oladimeji é um nigeriano Iorubá natural do estado de Oxum [Ọṣun] na Nigéria. Ele é graduado em Comunicação e Artes pela Universidade de Ibadan e é um âncora da referida TV.  
Nesse vídeo cujo título é: “Ekaaro Ejire Festival Benin Republic” (cuja tradução é “Festival Iorubá na República do Benin”) nos mostra um grande evento que reúne povos Iorubás, locais e não-locais, naquela cidade Iorubá localizada no Benin (veja o link de acesso ao vídeo, que estou disponibilizando nas referências).   
As pessoas locais desse reino se auto referem como “Thcábè” ou, mais comumente, como Nagôs”. Quer dizer: os habitantes de Savè são nagôs.
O nome Savè é uma corruptela do nome “Ṣabẹ” que é um nome Iorubá. Aliás, mais do que uma palavra iorubá, “Ṣabẹ” é uma palavra Nagô.
Isso mesmo Savè é (foi) um reino fundando por um filho (ou neto?) de Oduduwa (o Patriarca fundador dos reinos Iorubá) o qual teria vindo fugido de Meca, onde hoje está a Arábia Saudita, e se instalado em Ilê-Ifé (cidade-reino considerado o berço da civilização iorubá) onde chegou a reinar.
Seus descendentes se espalharam para outras regiões, principalmente da Costa Ocidental da África, tendo fundado reinos-estados dentre os quais alguns perduram até os nossos dias de hoje, como são os exemplos de: Ọ̀yọ́ (Oyó) a norte, e Ijebu ao sul; Ìjèṣà (Ijexá), Èkìtì (Ekiti) e Ondo (Ondo) a leste; Ketu (Quêto) Ẹ̀gbádò (Ebadô) e Ṣab a oeste [pontuando que Ketu está na fronteira entre (República da) Nigéria e (República do) Benin e Ṣabẹ está dento do Benin].
Devido a colonização francesa, a língua oficial da República do Benin é o Francês, porém a origem Iorubá do povo de Savè está evidentemente ilustrada pela língua aborígene ainda falada por eles: os Tchabès falam língua Nagô, a mesma língua Nagô falada na nossa cidade de Salvador, Bahia no século XIX por conta da presença e (certa) hegemonia de alguns povos nagôs vindos da Costa Ocidental da África.
 Os Tchabès dizem: “quem fala Nagô fala Iorubá e vice-versa, apesar das diversidades nas entonações”.
A diferença fundamental entre as duas línguas é que no alfabeto Nagô algumas letras do alfabeto Iorubá são omitidas.
Intercâmbios significativas ocorrem entre a cidade de Savè e cidades Iorubá da Nigéria. Essas interações são facilitadas devido à proximidade dos dialeto nagô e a fala iorubá  desses povos.
Os Tchabès têm uma tradição de hospitalidade e se comparados com os Iorubá da Nigéria não são tão belicosos. Isso talvez tenha oportunizado mais frequentemente, campanhas militares com fins imperialistas e de escravização por parte dos seus inimigos Fon do Reino do Daomé: e talvez explique a nossa presença nagô na nossa cidade de Salvador.
Assim o nome "nagô" começou a ser atribuído indiscriminadamente, pelos brancos europeus, a todos os povos cuja resistência às incursões escravistas eram consideradas frágeis, ou seja, nagô virou sinônimo de povo africano que não oferecia resistência militar considerável às incursões europeias de pilhagem e captura de escravos.
Penso ser importante destacar três depoimentos nesse vídeo:
1.    A fala do Rei Ọba Ọla Oyedekpo OniṢabẹ ti Ilu Ṣabẹ
(Ou seja, Rei Ola Oyedekpo , rei de Savè)
Em resumo ele diz que:
“ ... ali na cidade de Tchabè (Savè) estão reunidos iorubas da Nigéria e do Benin para realizar uma celebração pela primeira vez (première édition) …. Estão na minha cidade, e nos “Ànàgó” (Nagôs) de Tchabè, de Savalou (Savalu) …"
2.    No depoimento do Professor Akinwunmi Iṣola, um reconhecido dramaturgo iorubá e eminente propagador dessa língua e cultura além de ser um dos progenitores da literatura iorubá, falecido recentemente (no dia17 de janeiro de 2018, aos 79 anos de idade, em sua residência em Akobo, em Ibadan, após sofrer uma doença prolongada por mais de dois anos), ele diz que
 “...ali cada um daqueles povos iorubá representados se reconheçam, que mostrem seus respectivos dialetos (dialetos iorubas), suas respectivas culturas suas danças ...e se reúnem naquela cidade do Benin para falar a língua Ioruba assim como se fala Inglês, como se fala Francês...
3.    Professor Ayi Olabiyi, Asoju orilẹ-ede Benin si UNESCO, uma presença muito frequente na nossa cidade de Salvador, Bahia.
Professor Ayi Olabiyi, é um nagô nascido no Benin e é Representante da República do Benin na UNESCO), diz:
“ ... é muito benéfico reunir ... por que na Nigéria estão próximos uns dos outros, Iorubás de várias vertentes ...mas aqui no Benin não é fácil reunir...
                Voltaremos aqui em muito breve para dar prosseguimento a essa incursão no mundo nagô para continuar a colocar luz sobre o que é "nagô" e o que é "iorubá" e sobre as origens do Candomblé Jeje e traçar o quanto de Culto aos Voduns e quanto do Culto Orixá ou Nagô Vodun tem no nosso Candomblé Jeje. 
Referencias:
1.    Ekaaro Ejire Festival Benin Republichttps://www.youtube.com/watch?v=l-Hj4M27KiE (acessado em 26/02/19
2.    Savè https://fr.wikipedia.org/wiki/Sav%C3%A8 ( acessado em 26/02/19)
3.    Meet the Multi-talented and Outstanding Anchor of Arambara...Tunde Oladimeji;http://judithaudu.blogspot.com/2014/02/meet-multi-talented-and-outstanding.html (acessado em 02/03/19)
4.    Nagots;https://fr.wikipedia.org/wiki/Nagots (acessado em 28/02/19);5.    Os Yorubas; Anastácia Centro de Terapias alternativas;https://www.centroanastacia.com/index.php/87-santaria-cubana/271-os-yorubas  (acessado em 04/03/19);6.    Profile On Late Akinwunmi Ishola, ‘The Pioneer of Yoruba Classic Literature’; http://www.nigerianmonitor.com/akinwumi-ishola-biography-profile-nigerian-monitor/ (acessado em 04/03/19);
7.    Olabiyi Babalola Joseph Yai - Biography

 

 

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