Ifá e a sincronicidade multimilenária
O
livro Àwọn Àṣà ati Òrìṣà Ilẹ Yoruba [Tradições e Orixás das Terras Iorubas] (um
compendio no qual os professores especialistas em cultura Ioruba, o Dr. Olu
Daramola e o Dr. A. Jeje, levantam e compilam costumes, crenças, práticas sociais, etc.,
que caracterizam a sociedade ioruba, e registram em um documento extenso, e que se
torna uma obra prima da literatura iorubá), tem na sua página 250 o início do
capítulo intitulado Ifá.
Ali,
essa obra começa a apresentar o Ifá e
o papel desempenhado por esse sistema na sociedade iorubana.
No segundo parágrafo dessa página está um
trecho desse capitulo com a seguinte redação:
“Ipò
ti Ifá wa ni ilẹ̀ Yorùbá. Ni aye atijọ, kò si ohunkohun ti a le ṣe ni
ilẹ̀ Yorùbá lai lọ bèèrè lọdọ Ifá. Ti a ba fẹ́
fẹ́ iyawo; a o lọ bèèrè boya wundia ti ọkan wa sọ yóò jẹ
iyawo rere tabi bẹ́ẹ̀kọ́.
Bi a ba fẹ da ọjọ iyawo, ọwọ Ifá ni a ti wadi. Bi a ba bimọ, a ni lati lọ
bèèrè Ẹsẹ m´balẹ ọmọ naa tọ wa saye; ati iru orukọ ti yóò máa jẹ, ati iru onjẹ
ti a má fun un, yálà ọmọ ti yóò máa jẹ omi lasan ni, tabi eyi ti o máa jẹ àgbo
pẹlu rẹ̀ ni.”
A minha tradução: "O status do IFÁ nas terras Iorubás: No mundo antigo, não havia nada que
se tivesse que fazer nas terras Iorubás, que se fizesse sem antes consultar
IFÁ. Se alguém quisesse se casar, consultava a IFÁ para saber se a jovem amada
seria ou não uma boa esposa; para escolher o dia da cerimônia do casamento,
consultava a IFÁ; para ter um filho, consultava a IFÁ para saber que tipo de
história estaria trazendo criança; nascida a criança, consultava a IFÁ, para
saber que nome dar a essa criança, que tipo de comida que ele não deve comer,
se para essa criança beber água é suficiente, ou se deve tomar algum tipo de
chá. "
O Ifá é um sistema divinatório
que toma como base 16 configurações básicas (Oju Odú) e 256 (16 x 16) derivadas
ou secundárias (Amulu Odú), obtidas por intermédio da manipulação
de 16 castanhas de palmeira (ikin) ou pelo manuseio de urna
corrente (opèlè) formada com uma série composta por 8 meia-conchas (côncava/convexa) as quais são
instaladas na referida corrente de modo a intercalar trechos (dessa corrente) dividindo seu
comprimento em partes iguais.
Um adivinho, (treinado geralmente
desde a sua infância) por um longo tempo para o efeito da consulta desse
sistema divinatório é chamado de “Babaláwo” (literalmente “Pai do
segredo”).
Quando o Babaláwo consulta o sistema mediante a manipulação das 16 castanhas
de palmeira, elas são acumuladas na mão esquerda (que fica cheia pelo volume dessas
castanhas).
Então ele tenta apanhar com a
mão direita, aleatoriamente, de uma só vez, uma quantidade delas, de modo que, também
aleatoriamente, sobrem uma ou duas dessas castanhas na mão esquerda.
Aí ele vai considerar as
seguintes situações:
i.
Caso
duas castanhas sobrem na mão esquerda, ele traçará um sinal único sobre a bandeja
de divinação (Opon Ifá);
ii.
Caso sobre uma castanha na mão esquerda, ele
marcará um duplo sinal nessa bandeja.
Repetindo esse procedimento por
quatro vezes, resultará uma das 16 configurações básicas.
Repetindo mais quatro vezes, o
Babaláwo se defrontará com as seguintes possibilidades:
i.
Caso a configuração resultante repita o padrão
anterior, ou seja, a figura formada repita (seja igual) a figura anterior, o
sistema terá respondido um Oju Odú ( ou Odú principal) dos 16 possíveis.
ii.
Caso não se repita o padrão anterior, ou seja, a
configuração agora se mostre diferente da anterior, o sistema terá respondido
um Amulu
Odú (Odu secundário) dos 240 possíveis (lembrando que 16 + 240 = 256).
A cada uma dessas configurações
corresponde uma história ou um conjunto de histórias ou epopeias narrando
trajetórias de entidades Ancestrais e seus feitos, os sacrifícios (ẹbọ) e injunções
que fizeram de modo a obter o favor das Divindades e, assim, vencer dificuldades,
guerras, obstáculos naturais intempereis, etc.
Alternativamente, qualquer uma
dessas 256 configurações pode ser obtida com um só lançamento da corrente
divinatória (opèlè), no qual as meia-conchas côncava/convexa se
configuram mostrando cada uma sua face côncava ou sua face convexa, semelhante
ao sistema binário com reposta do tipo “0” (zero) ou “1” (hum).
No desenvolvimento da consulta
ao sistema divinatório, essa corrente é segurada ao meio, de tal modo que
quatro meias conchas pendam para cada lado, num só alinhamento, e lançadas ao solo ou sobre um tapete, etc..
É assim que cada meia concha
pode cair com sua superfície côncava para cima, o que equivale a uma marca
única, ou com essa superfície para baixo, o que corresponderá a duas marcas na
bandeja.
O culto de Ifá se torna um
sistema amplo que envolve na sua estruturação e na sua dinâmica, uma miríade de
cerimônias, sacrifícios, tabus, tambores, cânticos, louvações, iniciação e
outros elementos rituais.
O candomblé brasileiro,
principalmente na sua vertente denominada Candomblé de Quêto, é um fragmento do
Culto a Ifá.
Do ponto de vista da “Ciência Ocidental
do século XX” não haveria uma “relação causal” entre as configurações formadas
pela disposição aleatória dos elementos divinatórios na consulta ao Ifá e o
destino do consulente.
Mas a “Ciência Ocidental do
século XX” se contradiz de forma incontornável quando traz para a primeira
linha de teorias cientificas validadas pela experiência cotidiana, o conceito de
Sincronicidade, desenvolvido por Carl
Gustav Jung (1875 – 1961), um psiquiatra e psicanalista nascido na Suíça que
fundou a psicologia analítica, e não traz o Ifá para essa mesma linha de
teorias interessantes ao estudo e ao conhecimento.
O conceito de “Sincronicidade” foi desenvolvido para definir acontecimentos que se vinculam
não por “relação” causal e sim por relação de significado.
Mas
o Ifá já considerava essa “relação” bem antes dessa “hipótese” de Jung.
No trabalho de William Bascom
denominado “Ifa Divination” na página
3, está o seguinte relato:
“ ... que
pode constituir o primeiro relato a respeito da divinação Ifá da costa daquele
território que hoje é Gana,
em uma descrição fornecida por Bosman,
que lá serviu na qualidade de feitor para os holandeses em Elmina e Axim, durante 14 anos, ao fim do século XVII. Depois de primeiro
discutir um método de divinação no qual “cerca de vinte pedacinhos de couro”
são suados, Bosman (1705: 152)
diz que “a segunda maneira de consultar os ídolos deles é por meio de uma
espécie de castanhas selvagens que eles fingem levantar por acaso e as deixam
cair novamente, após o que eles as contam e preparam suas previsões dependendo
se seu número for par ou ímpar”.
Em um próximo post falarei sobre algumas das
primeiras configurações e seus significados.
O dàbọ
Referencia:
1. Daramola, Olu.; Adebayọ Jeje; Àwọn Àṣà ati Òrìṣà Ilẹ Yoruba Onibon,
1975 Ibadan;
3.
Bascom, W., Ifa Divination;
https://pt.scribd.com/document/252552049/1-Bascom-William-Ifa-Divination-Traduzido (acessado
em 10/03/19);
4. Wikipedia; Carl Gustav Jung;
(acessado em 10/03/19);
Ifa Divination for the anual Aboniregun Ifa Festival;
5.
Imagem:
https://www.ileifa.org/ifa-divination-for-the-annual-agbonniregun-ifa-festival/
(acessado em 10/03/19)

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ResponderExcluirCaríssimo Mawó Adelson, permita-me complementar, no livro 'Adivinhação na Antiga Costa dos Escravos', Bernard Maupoil faz um estudo clássico expondo toda a complexidade do sistema de Ifá, tentando honestamente se despir de sua visão eurocentrica, para muito além do nexo de causalidade exigido pela visão cartesiana, esmiuçando muitos aspectos inclusive da organização político-religiosa do Dahomey nos séculos XVIII e XIX, inclusive com passagens bastante interessantes relatando o processo de adoção, assimilação e até a compra de deuses estrangeiros no antigo Dahomey. Estou apenas no primeiro quarto deste extenso livro. Vale muito a pena a leitura deste estudo clássico.
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