Awọn ọmọ Ànàgó gbàdúrà fun awọn Òrìṣà wa




Vocês já sabem que o título desse “post” está escrito em língua Iorubá.
A sua tradução é: “Os descendentes dos nagôs rezam (os) para nossos Orixás”.
E com relação ao “título” pode surgir uma pergunta, qual seja: onde estão esses “descendentes” nagôs ali referidos...?
Será que o “título” faz referência aqueles que vivem em Kétou (terra do Oeste da África que nós chamamos de Quêto, um reino localizado sobre a fronteira entre os territórios da República da Nigéria e da República do Benin)? Ou será aqueles que vivem em Savé, ou em Tchaourou, ou em Doumé, ao norte de Abomey e Porto-Novo, a capital, onde eles estão mais perto dos Gouns (que também são nagôs)?
Ou será ainda que no “título” me refiro aos nagôs de Savalu, um antigo reino localizado também onde está hoje a República do Benin, e no próximo "post" falarei de Savalu)?
Não meus amigos, amigas, irmãos e irmãs, filhos e filhas: nada disso. Não estou indo “tão longe” do ponto de vista geográfico. O título faz referencia a nós mesmos: povo de Salvador Bahia, de origem Nagô.
Gosto muito de reler o depoimento prestado por Martiniano Eliseu do Bonfim (1859-1943) ou Ajimúdà (um título de alto sacerdócio do Culto a Obaluwaye) ao linguista Lorenzo Dow Turner, em outubro de 1940. Turner foi primeiro linguista afro-americano a vir a Salvador, na Bahia, com a intenção de coletar informações sobre a cultura afro-brasileira.
 Martiniano era também conhecido como Ojé L´ade (Ojéladê, um alto sacerdote do Culto a Egungun), era filho de pessoas vieram a essa terra na condição de "escravizadas" mas que nasceu livre e foi o grande precursor do retorno às raízes africanas e da busca de elementos capazes de fortificar as práticas religiosas dos povos negros na diásporaafricana na Bahia.
Nesse depoimento, traduzido recentemente para o Português pelo Professor Félix Ayoh´Omidire, ele disse, dentre várias informações que prestou:
“Ẹmi Òjéladé, mo dé tí mọ nbáyín sọrọ, wọn bímí ní ìlú Brasili tí wọn npe ní Baia. Orúkọ mi ni èdè òyínbo wọn npe mi ni Martiniano Eliseu do Bomfim. Baba mi njé Eliseu du Bonfim, Àreòjè. Ìyá mi njẹ Felicidade Silva Paranhos, ni orúko Ìnàgó Majéngbásán...”

Tradução

Eu, Òjeladê, estou aqui para falar com você. Eu nasci no estado brasileiro chamado Bahia. Meu nome brasileiro é Martiniano Eliseu do Bomfim. Lá, meu pai, Àreòjè, me criou junto com minha mãe biológica, Majénbásán. O nome do meu pai era Eliseu do Bomfim, Àreòjè. O nome brasileiro da minha mãe era Felicidade Silva Paranhos, enquanto seu nome nagô era Majénbásán.

A intenção ao reproduzir esse trecho de depoimento, é mostrar que se falava língua nagô aqui na Bahia N-O-R-M-A-L-M-E-N-T-E.
Então, quando eu digo: “Awọn ọmọ Ànàgó gbàdúrà fun awọn Òrìṣà wa”, aproveito para apresentar cinco exemplos demonstrando a veracidade do que estou afirmando:

1.    Cheguei como convidado em uma cerimônia realizada em um Templo (popularmente chamados de terreiros) da tradição Nagô situado em um bairro próximo à orla marítima da nossa cidade. Era uma noite de louvor ao orixá Ogun. Nesse momento em que cheguei o Zelador cantava em Iorubá:

Ògún a kò fiirii, Ògún a kò fiirii
          A pàdé lọna, Ki awo, Ògún a kò fiirii

Tradução

Não estamos longe de Ogun, não estamos longe de Ogun. Nos  encontramos  com Ele no caminho, Ele saúda o nosso Culto, não estamos longe  de Ogun.

2.    Em um outro Templo também de tradição Nagô, fui como convidado e ao chegar percebi que um Ogan cantava para Oxóssi em língua Iorubá, dizendo assim:

Olówó gìrì-gìrì lóòde, Ó gìrì-gìrì lóòde
         Ó wà nígbó ọ̀rọ̀ ọdẹ òkè ó dára ṣáà ló gbran        
Tradução:
Senhor abastado que faz barulho ao pisar, como se fosse uma multidão
           Ele está na floresta sussurrando encantamentos para caçar, ele é altivo e certeiro ao ferir o animal.
 
3.    Em uma terceira Casa, cheguei para ver que o Zelador "puxava" um solo para Oxumare, cantando assim:

Àróbọ̀ ba à bọ̀ wa òjò wá dé ikọkún, Àróbọ̀ ba,

          Òjò wa dé ikọkún

Tradução

Ó Intermediário, nos represente
Traga chuva para encher os nossos reservatórios.
 
4.    Em um quarto Templo, a Zeladora me recebeu cantando para Obaluayê,  (lembrando que Obaluaye e Omolú são os correspondentes a Azansún no Jeje Savalu, e lembrando também que eu sou Mawo [Zelador graduado] da Casa de Azansún no Jeje Savalu) assim:   
Ọmọlú tó ló kun ẹran ẹnian, ẹ ló, ẹ ló ẹ kun,
           Ọmọlú tó ló kun ẹran ẹnian, ẹ ló, ẹ ló ẹ kun

Tradução
Omolú pode esfolar o homem. Sim, ele pode, ele esfola
Omolú pode esfolar o homem. Sim, ele pode, ele esfola

5.    Na quinta Casa, a Zeladora cantava com muita contrição, para Oxum, dizendo assim:

Olóomi máa
Olóomi má iyọ̀,
Olóomi má iyọ̀,
Ayaba odò.
Ó yèyé ó

Que, traduzido para o Português, significa:
Senhora das águas sempre,
Senhora das águas sem sal,
Senhora das águas sem sal,
Rainha do rio
És nossa maezinha.
 
          Ọṣun ibùkún ! (Que Oxúm abençõe a todos!)
 
          E então, pelo acima exposto, qual a conclusão? a Bahia fala ou não fala língua     Iorubá que é a língua Nagô?
          No próximo “post” vou falar sobre a relação visceral  do Jeje Savalu com os. Nagôs.

Referencias:

1.    OLIVEIRA, A. B., “Cantando para os Orixás”; Pallas, 4ª Edição, 1ª Reimpressão, Rio de Janeiro, R.J., 2007;

2.    Félix Ayoh'Omidire; Alcione M. Amos; o babalaô fala: a autobiografia de Martiniano Eliseu do Bomfim


3.    Nagots; https://fr.wikipedia.org/wiki/Nagots (acessado em 18/03/19);

Comentários

  1. Como um descendente direto da Guiné, apesar da pouca idade e de não ter convivido com meus ancestrais, ouço bastante relatos dos que tiveram esta grande oportunidade, e me diziam que pouco eles falavam português, (só quando a conversa interessava aos nativos) durante seus diálogos a predominância era o Yorubá.

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